segunda-feira, 14 de maio de 2007

O Universo de Miguel 1



Quando naquela manhã acordou, Miguel não sabia que o que tinha acabado de sonhar, seria o seu pior pesadelo.
Miguel era um jovem escritor, com talento, logo escritor é um termo que a ele se aplica erradamente.
Para se ser escritor e viver da escrita é preciso duas coisas, talento e sucesso, por isso, como ele só tinha uma das coisas, não se poderia considerar um escritor. Pronto era um escrevedor.
Miguel vivia uma eterna frustração de ser incapaz de criar algo. Ele escrevia, mas apenas escrevia sobre o que se passava à sua volta e nunca conseguira ultrapassar essa limitação.
Uma vez Miguel, num jantar em que todos os “amigos” marcaram presença, Miguel levanta-se e pede desculpa a todos por todos os comentários infelizes que causaram qualquer tipo de embaraço aos outros. E diz também não se incomoda de ouvir qualquer comentário a cerca do facto de ter um pénis pequeno. A verdade é que não era assim tão pequeno. Pelas coisas que tinha visto na Internet, estava bem na média e quem sabe um bocadinho acima.
Há dias em que nos sentimos verdadeiros montes de palha, hoje é um desses dias.
O pior é que normalmente nestes dias as outras pessoas parecem-nos todas cigarros mal apagados, preparadinhos para nos incendiar.
Nós gritamos, resmunga-mos, para que não nos atirem aquele cigarro mortal, mas na realidade o que mais queremos é incendiarmo-nos e desaparecer.
Passar a pertencer ao mundo dos eternos, passar a cinza, porque a cinza é eterna.
Apesar de nos parecer que a cinza desaparece num instante, isso não é verdade.
A cinza apenas se transforma e não se transforma em qualquer coisa.
Transforma-se em vida.
Depois de voar, depois de conhecer o mundo, deposita-se nos campos e vai ajudar as plantas a crescer.
Há mesmo quem escolha a cinza como ultimo estado de vida, ou de morte, ou de morte viva.
Eu não, eu não quero ser cinza, sou demasiado egoista para isso e prefiro ficar aqui no meu sitinho, para que os outros me possam vir adorar.
É tão bom estar aqui deitadinho a ver os outros dizer que gostam muito de nós sem nunca nos terem realmente conhecido.
E ouvir dizer que nos amam, quando olham para um montinho de terra ou uma pedra de granito, talhada pelo senhor pedreiro que com a morte faz vida e com a morte se torna cinza.
Para Miguel este era um desses dias.

Sem comentários: